AMORES
- É lei: macho lava a honra com sangue!
- Miguelinho - desde criança, - vivenciou isto, porque o pai, Miguelão - na sua frente - enfiou a faca na garganta da mãe, Cletilda, porque ela chamou-lhe frouxo.
- Miguelinho cresceu assim: dividido entre a macheza do pai e a ausência da mãe que, pela voz do pai - em cana - sempre foi uma vaca, uma depravada, uma filha-da-puta, uma vadia mal-agradecida e desalmada.
- Ouvia estas merdas e, ainda por cima, bebia umas cachaças... quase sempre o dia inteiro.
- Desocupado, o maior trabalho era vigiar Vandilsa - prima - que ele, na escala dos relacionamentos humanos - de parentes - classificou como 'sua'.
- Vandilsa não sabia, mas lhe pertencia.
- Ele a vigiava de longe: sabia seus horários, seus hábitos, sabia a cor dos cabelos, do sapato, do lenço, do batom, do vestido e, às vezes, a cor da calcinha.
- Sabia a que horas ela levantava, a cor da camisola, o que comia no café da manhã, o que comia no almoço, qual novela, qual música, qual livro, qual vestido, como passava o dia... quantas vezes respirava por minuto.
- Se ocupava com isto se alimentado do salário mínino que a avó, Anilda, recebia do INSS.
- Se entrincheirava na praça, de manhã, na frente da casa de Vandilsa e fazia, mentalmente, o relatório do dia.
- 06:45: escola, com a amiga Lísia.
- 09:30: recreio, uma coxinha no boteco do Zélio.
- 12:00: chegava em casa, jogava a bolsa no sofá.
- 12:30: almoço, sempre com suco de laranja.
- 14:00: saída, para estudar com Lísia.
- 16:00: retorno para casa, banho.
- 17:00: televisão, resto de sessão da tarde.
- 19:00: jantar, sempre com uma saladinha de alface.
- 20:00: Jornal Nacional.
- 21:00: novela, sempre na Globo.
- 22:30: cama, com a camisolinha branca.
- 05:30: fora da cama, banho.
- 06:00: café da manhã, sempre uma bolachinha de chocolate.
- 06:45: escola, com a amiga Lísia.
- Aparência: cabelo liso - loiro; um brinco de pérola - pequeno; uma miniblusa verde - indecente; o umbiguinho de fora - lindo; uma sainha jeans - minúscula; uma calcinha vermelha - ínfima (às vezes se via); uma sandalhinha da Xuxa - azul... um jeitinho de sem-vergonha - piranha mesmo - estampado no rosto.
- E descia a rua.
- Miguelinho acompanhava de longe.
- Isto já rolava há 07 anos, sigilo absoluto, nem o maior do maior do maior dos amigos sonhava tal obsessão.
- Uma boca de noite, Miguelinho, desta vez sem estar de guarda, vinha descendo a rua e deu de cara com Vandilsa entrando num carro preto - Celta.
- O cabelo liso - loiro; o brinco de pérola - pequeno; a miniblusa verde - indecente; o umbiguinho de fora - lindo; a sainha jeans - minúscula; a calcinha vermelha - ínfima; a sandalhinha da Xuxa - azul... uma jeitinho de sem-vergonha - piranha mesmo - estampado no rosto.
- Bambeou as pernas, sentiu um troço na cabeça, e saiu correndo atrás do carro.
- 15 minutos depois, parou.
- Valdilsa sumira no escuro da noite.
- Tontura, arrepio, pernas moles, angústia, desespero, dor, agonia, infelicidade, tristeza, ansiedade, caralho, porra, filho-da-puta, cê me paga, cadela, vadia, corno, bandido, sem-vergonha, isto não fica assim, eu mato, arrebento, ninguém mexe com mulher minha, safada, vaca, ordinária, vagabunda... puta!
- E não foi pra casa esta noite.
- Fincou pé na praça, frente da casa de Vandilsa - a faca na cintura.
- Não viu quando o carro preto - Celta - chegou, porque cochilava.
- Nem quando ele partiu deixando Vandilsa depois de um longo e demorado amasso no banco de trás do carro.
- Acordou, sem saber onde estava, com a janela do quarto de Vandilsa ainda iluminada.
- Olhou o relógio: 04:23 da manhã.
- Levantou-se - nada mais a fazer - caminhou pela rua e sentiu na pele o que é a dor do ciúme, a dor de corno, a dor de macho desprezado... a dor do amor.
- A faca cutucava o estômago, o coração, o fígado, o pâncreas, o baço, os rins... a alma.
- Pensou no pai que lavara a honra com muito sangue.
- O estômago embrulhou.
- Em casa, vomitou até as tripas - como se diz na gíria.
- Vandilsa flutuava dentro da sua cabeça com a agônica sainha jeans - meu Deus!, o angustiante umbiguinho lindo - meu Deus!, a sua cara de vaca, depravada, filha-da-puta, vadia mal-agradecida... e desalmada!
- Sentiu-se frouxo, sem ninguém para chamá-lo disto.
- E pela primeira vez ficou pensando se sua mãe não tinha razão em relação ao seu pai.
- Deitou-se, enfiou o dedão na boca, colocou-se em posição fetal e choramingou baixinho a ausência da mãe.
- E não dormiu!
TõeRoberto

PESCARIA!
Imagem:internet-autor desconhecido-post in jampa/pb
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APRENDENDO! Sexo é como jogo de cartas: se você não tiver um bom parceiro, é bom ter uma boa mão.